Daniela de Amorim Sampaio

Em dado momento a oligarquia social decidiu o que era “normal” e o que não era; o que era aceito e o que não era; o que seria acomodado pelos espaços sociais e o que seria marginalizado. Assim, nasce a loucura, a histeria. Não a condição biológica dos indivíduos mas o pacto social de marginalizar os corpos, cérebros e mentes que foram feitos e se comportam de uma forma diferente do acordo inicial – acordo, para o qual esses corpos sequer foram convidados a presenciar como ouvintes.

 Em dado momento, os agentes e as instituições que dominam a pirâmide social disseram “estas características aqui serão aceitas, já estas outras não caberão” o que culminou em um desenvolvimento de esferas sociais que são lembretes constantes desta norma, reforçando para nós e para o meio o fato de que a sociedade não foi feita para nós – de que a sociedade não está para nós. De forma que, qualquer mísera migalha que lembre (ainda que BEM de longe) uma acomodação para a nossa diferença, é um presente, uma dádiva…. Como se não tivéssemos o direito natural e fundamental de existir e – se formos mais rebeldes – de existir com dignidade.

Neste ponto, há de se falar da caridade cristã. Há de se falar no gozo da elite (ou dos que se acreditam elite, pois não dominam os meios de produção ou algo similar); do gozo em nos distribuir as suas migalhas, os seus restos. O tesão de fazer 1% do mínimo e gerar meses de publicidade para si ou para sua empresa, como se Jesus Cristo fosse descer dos céus bíblicos e parabenizá-los pessoalmente por fazer nada mais do que a sua obrigação. Como se houvesse motivo de celebrar a dificuldade de grupos marginalizados em apenas existir.

Segundo a nomenclatura ortodoxa, eu sou diagnosticada com Síndrome de Asperger. Isso significa que, durante o Terceiro Reich da Alemanha Nazista, um médico chamado Hans Asperger construiu uma cerca. A partir dessa certa, Asperger elencou os critérios que determinavam aqueles que poderiam pular a cerca, para se juntar ao resto da sociedade, e aqueles que seriam barrados. Para conseguir pular a cerca, era preciso necessariamente fazer parte dos “loucos” que, ainda que “loucos”, poderiam contribuir e produzir para o Terceiro Reich – o famoso termo “pessoa com altas habilidades”. Os que foram barrados de pular a cerca, eram aqueles indivíduos julgados não possuir atributos atraentes ao Império Alemão. Estes, como já não se precisava de seus serviços, eram enviados aos campos de concentração.

Eu, provavelmente, não teria ido. Eles iam me deixar pular a cerca… Provavelmente. Eu penso nisso com alguma frequência: Se eu estivesse viva durante o Terceiro Reich, eu estaria há 1 médico eugenista de distância da tortura e da morte. Síndrome de Asperger não é o que eu tenho – é o nome do meu bilhete de passabilidade para pular a cerca. Eu sou autista.

A partir do documentário “Provocações Foucaultianas” e do livro “História da Loucura” de Foucault – passados pelos nossos professores, que pediram para que destacássemos uma questão para exposição, eu escolhi falar sobre loucura e neurodiversidade… E sobre a cerca. Ainda que os avanços e o alargamento das pesquisas, dos debates e das ciências a respeito de Direitos Humanos, Direitos Fundamentais e Neurodivergência seja palpável, devo-lhes comunicar que para nós, neurodivergentes, a vida e os nossos dias ainda são exaustivamente assombrados pela cerca. Decerto, não seremos mais mandados para campos de concentração. Entretanto, a sociedade e as suas estruturas continuam ditando quem cabe e quem não cabe nelas. Quem é bem-vindo e quem não é e jamais será bem-vindo. As cercas se multiplicaram e elas estão espalhadas por todas as esferas sociais e espaços que tentamos exaustivamente ocupar.

E, agora, eu serei bem clara para que não reste dúvidas: Consegue pular mais cercas aqueles que conseguem esconder e mascarar melhor as suas características neurodivergentes. Toda vez que conseguimos invisibilizar quem somos, para nos fantasiar da “norma-normalidade”, pulamos uma cerca. Entretanto, como uma fantasia, por mais agradavelmente bela que ela seja, é apenas uma fantasia – não é quem somos de verdade. Absolutamente tudo em nosso corpo e em nosso comportamento tem a capacidade de nos denunciar. Enfim, quando pegos em flagrante, voltamos para a margem; para fora da cerca – que é o lugar em que a estrutura social, de fato, deseja nos ver.  No dia seguinte, quando acordamos, imediatamente nos vem à cabeça: “quantas cercas eu precisarei pular hoje? E quantas eu vou conseguir?”.

* Texto elaborado a partir de leitura do capítulo “A grande Internação” da obra História da Loucura de Michel Foucault. Atividade capitaneada no grupo de pesquisa “Políticas e epistemes da cidadania”.

Daniela de Amorim Sampaio

Pesquisadora Júnior do grupo de pesquisa FORMAGEL, com ênfase em educação e saúde prisional – PIBIC. FAPESB. Presidente Fundadora da Liga Acadêmica de Educação Inclusiva e Neurodiversidade (LAEN), da Universidade Salvador – UNIFACS. Embaixadora Estudantil da UNIFACS e Monitora Voluntária da disciplina de Psicologia da Educação.