António Pedro Dores

As gerações mais bem escolarizadas de sempre, as gerações vivas, sofrem de falta de imaginação.

Há quem elogie o realismo e o materialismo modernos. Mas há também quem tenha notado haver uma degradação fisiológica das capacidades cognitivas motivada pelo excesso de estimulação visual, através de écrans (Desmurget, 2012). Com a informação à distância de um clique, muitos de entre aqueles que têm obrigação de ler deixaram de o fazer: veem a informação, copiam os textos, trocam fake news capazes de recalcar a raiva que sentem por estarem a sofrer os processos de desumanização em curso.

Na era da realidade virtual, a imaginação estimulante de melhores cuidados entre humanos tornou-se um exercício narcísico de empoderamento fictício, como acontece aos viciados de todas as espécies, incluindo aqueles viciados no consumismo, nos mercados, nos jogos de guerra, reais ou meramente electrónicos. Matar ou, pior, tornar mais difícil a vida de terceiros, sejam os pobres, sejam os que vivem sob a soberania de um estado inimigo, através de sansões, sejam os bodes expiatórios produzidos para fingir que os estados perseguem os criminosos – quando frequentemente são dirigidos por criminosos – mesmo quando isso passa na televisão, não interpela as sociedades. Interpela cada um nós na nossa boa consciência de pessoas impotentes que se desculpam, aliviadas, por serem impotentes. Assim podemos continuar a viver indiferentes à putrefacção da política e dos estados, no Brasil, nos EUA, na Europa e por todo o lado.

Manning, Assange, Snowden são exemplos conhecidos em todo o mundo de pessoas cuja lucidez as obrigou a denunciar crimes imperiais, de guerra, de violação da privacidade, de inoperância da comunicação social como quarto poder. Todos assistimos às torturas que lhes foram e continuam a ser aplicadas, como se milhões de nós, cada um na sua profissão, não soubéssemos das misérias e mortes decretadas arbitrariamente pelas diferentes instâncias do império, aqui ao nosso lado. Os casos citados são usados pelo império para intimidar, à uma, toda a humanidade. E isso funciona. Para nossa vergonha colectiva.

O extraordinário e entusiasmante acesso a informação por via da internet vem a par da redução das nossas capacidades cognitivas pessoais e sociais, biológicas e imaginativas. Como prisioneiros, vítimas da síndrome de Estocolmo, estamos hipnotizados pelos interesses das elites. Estas nem precisam de se preocupar em saber aquilo que lhes pode ser útil: os think thank, as universidades, as escolas, os estados, competem entre si para vender recursos de que sejam titulares, incluindo recursos humanos, competências especializadas, pedaços de gente socialmente isolada tolhida pela falta de imaginação. Os jovens são encaminhados para o empreendedorismo, esgotando a sua imaginação em como servir as elites. Estas compram aquilo que dá mais lucro e abrem concursos competitivos para os próximos anos.

Esquizofrénicas, as sociedades humanas modernas tornaram-se adoradoras da democracia (ou do que resta dela, o voto) e do meio ambiente e, ao mesmo tempo, aceitam trabalhar quotidianamente para a exploração da Terra e dos seus recursos, incluindo os recursos humanos, como profissionais hipnotizados, mas competentes.

Presos estamos nós. A maioria dos presos, ao menos, não participa directamente na exploração da Terra. Ironicamente, são levados a aspirar a viver em liberdade e a integrar uma sociedade esquizofrénica em putrefacção. Pedimos-lhes que se ressocializem, fingindo não saber que também nós nos precisamos de ressocializar, de nos libertar das elites criminosas, destruidoras do meio ambiente, redutoras da humanidade a uma praga contra a diversidade da vida na Terra.

Os presos são os bodes expiatórios contra os quais as sociedades modernas traumatizadas atiram pedras reais e simbólicas. Resgatam, assim, a boa consciência de quem está sob o efeito inebriante da síndrome de Estocolmo, maximizado pela publicidade-propaganda dos ecrãs. Os presos são institucionalmente cultivados desde crianças, como foram e podem ser os filhos das escravas, para serem úteis para a organização de práticas sacrificiais modernas. Crianças e jovens abandonados que aprenderam a viver sem amor são educados por instituições de caridade como pré-delinquentes para, quando adultos, serem usados para servir como prisioneiros. A repugnância que tais práticas provocam nos humanos é dirigida para as vítimas, para os presos imaginados criminosos (em substituição dos verdadeiros criminosos que pululam nos meios dirigentes). Só raramente as sociedades dirigem a sua raiva para as elites. Estas, de quando em vez, deixam cair alguns elementos incómodos para saciar a raiva dos povos e resolver problemas entre elas.

A arte de substituir muros por pontes entre a natureza e os humanos, deve ter em mente a necessidade (urgente) de resgatar as pessoas do controlo das elites que nos transforma em indivíduos ao seu serviço. Profissionalizando e aprisionando, as elites usam dissimulada, mas eficazmente, velhos conhecimentos hipnóticos de massas, maximizados pelas tecnologias modernas. Não é fácil tornarmo-nos tão inteligentes como os nossos antepassados, porque biologicamente a vida moderna nos estupidifica quotidianamente. Produzimos industrialmente lixo material e também lixo humano, nas lixeiras, nos empregos e em casa.

Dada a emergência ambiental e política, com o ressurgimento do nazi-fascismo, com a imaginação bloqueada pelos cantos de sereia dos vícios com que as elites entretêm os povos, há que estimular a imaginação livre dos ecrãs orwellianos que nos ocupam todo o campo de visão.

As pontes de artes para transformar os muros das prisões em passagens de liberdade devem aprender e ensinar a cultivar, de ambos os lados, uma imaginação realista, materialista, mas também livre da síndrome de Estocolmo. Em vez de pontes de empoderamento devemos aprender a construir pontes de cuidados. Em vez de ressocializar os presos numa sociedade em putrefacção devemos aprender a imaginar juntos como nos libertar colectivamente do colete de forças de que as prisões são uma das expressões mais aberrantes e cruas.   

REFERÊNCIAS:

Desmurget, M. (2012). TV Lobotomie : La vérité scientifique sur les effets de la télévision. Forum Social Local du Morbihan. http://www.informaction.info/video-science-technologie-tv-lobotomie-la-verite-scientifique-sur-les-effets-de-la-television.

António Pedro Dores

Doutor em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) de Lisboa com licenciatura, qualificação e título de agregado por esta instituição. Professor do Departamento de Sociologia do ISCTE/Lisboa. Investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES). Coordenador nacional do Observatório Europeu das Prisões (EPO). Membro da Associação Contra a Exclusão pelo Desenvolvimento (ACED).